8 de agosto de 2019

Há lá forma mais bonita de viver?

Ela cresce e eu mirro.
Ela engrandece e eu diminuo. Aproximo-me do chão.
Ela regenera e eu embranqueço.
Ela prospera e eu envelheço.
Há lá forma mais bonita de morrer?

Ela supera e eu vibro.
Ela sorri e eu rio. Aproximo-me do céu.
Ela abraça e eu derreto.
Ela sonha e eu prometo.
Há lá forma mais bonita de viver?

13 de novembro de 2012

raiz


é como sempre um convite isto.

com honestidade mas com toda a agressividade se se justificar e permitam-me que o modo como se mede o quer quer que seja que está definível deste lado da janela.

adianto que apesar de não haver portas nesta casa sem tecto, ninguém se atreve a entrar.

mas voltemos ao que vos prende aqui. dizia eu que as cordas que nos apertam não estão ao alcance de todos desenlaçar, cortar, queimar ou até mesmo reforçar, se for o caso.

face a isto e ao que há-de surgir, apraz-me informar que eu já sei nadar.

14 de outubro de 2012

Um dia de atraso por razões nada platónicas...

Quero dar os parabéns a este blog e a estas pessoas maravilhosas que o fizeram acontecer.  É verdade que tudo começou por uma feliz coincidência de duas pessoas ocuparem o mesmo espaço à mesma hora e com as mesmas felizes ideias germinando nas suas cabeças. Felicito essas duas cabeças e as que lhes seguiram e espero que possamos continuar este singelo trabalho por muitos e muitos anos!!! Parabéns

12 de outubro de 2012

7 years ago

It was 7 years ago that a very specific meeting between 2 friends happened. It was 7 years ago that started the pleasure of  creating a dream that never became real but that, in fact,  it was the most pleasant dream I ever lived.  The celebration of something that we didnt forget and the celebration of something that was created by us. Something that had a meaning. It was a search that gave us purpose, that gave us a mission. We are celebrating something that became independent, that has its own inteligence and its own survival instinct.

Yes, it was exactly 7 years ago that all of that started. It raised itself, it multiplied itself, it developed to something that was beautiful, and most of all, it became something that never stopped to exist. Probably now you would tell me that it is something that doesnt have any sense to have its own existence anymore. Still, it is something that I want to keep it alive in our memories. Its not just something that I just simply want.......... I need it. Its one small reason to look back and to realize that in fact I was able to create something. We all created it. That meeting that happened between 2 friends, 7 years ago was just the very begining of something that you all raised it to the sky.
You have to admit, that the idea was a great idea, and that the paths that we all crossed together had very special and peculiar moments. It gave us a reason to be connected forever. You know that even if we see each others just in 40 years, you will remember what was the issue that I am writting here and that started 7 years ago.


Someone asked me today, who are the people behind it at the moment and who is in charge of it. I expressed a smile (a very nostalgic smile while I was lighting my cigarette) and I had to explain that there is nobody behind it or in charge of it anymore. It became free...it became independent......it became a feeling.

I started this celebration yesterday evening, because of a personal reason that driven my way to that meeting. Tomorrow (13-10-2012) remember this special feeling that we created, remember it because it never stops, and it will never stop.......The Movimento M will always be in our memories and in our hearts.


Happy birthday Movimento M.

6 de outubro de 2012


Há um barco de lágrimas à deriva, esperando uma farol que lhe mostre o caminho para terra. As ondas parecem nem tocá-lo e ele como que flutua numa espécie de limbo eterno. O farol escondeu-se que não quer encontrar este barco. Fazer isso seria sinónimo de o trazer perto de si. Se o barco chegar não perderá a luz o seu brilho, pensa o farol debatendo-se com a obrigação de cumprir um dever. Os peixes olham o barco à maneira de quem escuta um sermão e também eles não ousam aproximar-se. Nunca antes tinham vistos estes estranhos seres que habitavam o barco. Estaria então o barco fadado a andar à deriva ad eternum? 

imbecilidades desconexas


Há, entre os planos, uma linha vazia
Desenha-se de forma inusitada
Quase não a percebia
Que bem fica assim atada

Os planos não se tocam
A linha não permite veleidades
De se olhar não deixam
Interrogam-se sobre as idades

O que aconteceria se se tocassem
Se pudessem dissipar a curiosidade
Não deixes que passem
Cairia o carmo e a trindade

Crescerá para sempre a linha
Ou triunfará a vontade deles?
Será que um dia definha,
Ou desistirão eles?

Um cravo na lapela, parece que espreita de uma janela. Faz lembrar a menina que o futuro não quer dela, o sol pintado de vermelho na tela e o céu azul aguarela. De trela ao pescoço vem o cão e o moço, de ofegante nota-se-lhe o esforço e o polícia ao balcão a comer o tremoço. Troça o polícia, ladra o cão e o cinzento das nuvens esconde o céu e o sol. A menina perdeu o futuro e da janela já ninguém espreita. Ficou o cravo, caído da lapela para o chão.

Um viajante...


Entrara como se vento fosse e passou por mim sem que desse por ele. Era assim o velho coronel, acostumara-se a ser furtivo nos seus tempos de guerra e não gostava que ninguém desse conta de quando entrava e saía. O que fazia no seu quarto, até hoje o não sei, apenas que por lá permanecia durante horas a fio e nem um pio se ouvia. Assim que o sino da igreja dava as seis horas voltava a sair da mesma forma como entrara, veloz e sorrateiro. Um certo dia tentei segui-lo à distância para perceber o que aquele velho tanto tentava esconder. Esperei fora da casa pelo sino que dava as seis horas. À hora marcada, lá saiu o coronel, com um passo tão vagaroso que me parecia surreal que pudesse passar por mim todos os dias sem que desse por isso. Encetei a marcha, tentei ser um com a natureza e cada passo que dava coincidia com o assobiar do vento. Consegui segui-lo sem problemas durante os primeiros duzentos metros, até à enorme praça da cidade. Chegado à praça começou a agir de forma peculiar, quase como se soubesse que estava a ser seguido, ainda que até hoje tenho a certeza que nunca deu pela minha presença; olhava para todos os lados excepto para o meu. Parou em tudo o que era loja para ficar a admirar o seu recheio, ainda que o recheio de algumas dessas lojas fosse tão inadequado como uma de lingerie, na qual tomou largos minutos contemplando, quase como se estivesse a ler um jornal desportivo.
                Assim que estávamos prestes a deixar a praça, e eu a descobrir o caminho que tomava, desapareceu. Sim, como o fumo da chávena de café desaparece assim que atinge certa altura. Não digo que fosse magia ou que o coronel fosse qualquer espécie de bruxo, mas esta verdade que conto é a mais pura delas. Percorri toda a praça, todos os caixotes, revirei-os. Entrei em todas as lojas, em todas as lojas perguntei se o tinham visto. Em todas elas a mesma estranha resposta: “Não sei de quem fala senhor, por cá não passa nenhum simples militar quanto mais um velho coronel”. Pensei para comigo que seria apenas coincidência, que não o viam porque simplesmente não era hábito seu olharem para a rua procurando mirones, daqueles que olham interminavelmente para no fim nada comprarem ou sequer entrarem na loja. Continuei a minha busca, desta feita percorri todos os caminhos que ligavam à praça, pesquisando qualquer possível pista dele, mas nada. Três horas volvidas, voltei para casa, o coronel estava novamente no seu quarto. Ao ouvir o ranger da porta de entrada, saiu do seu quarto e perguntou-me onde havia estado, fazia horas que me procurava e não me encontrava. Queria o seu leite com chá; hábito adquirido com um seu velho amigo 

29 de abril de 2012

um ponto final nunca permanece totalmente sereno

viver é tão complexo que acho que nos perdemos dentro de becos sem saída porque nos distraímos.
às vezes, sinto isso.

e depois o sentir... sentir tanto as pessoas, a dor do mundo e as coisas boas. até essas nos fazem parar a respiração.

está a vida toda a desenhar-se e eu tenho tanta vontade de voltar aos meus 5 anos e ser assim feliz como era e pensar que os adultos eram uns sábios que nos protegiam de tudo e que estariam sempre lá para nós.

depois, começas a crescer e com o processo as normais dores que mais ninguém pode ter.

temos de abrandar o ritmo e traçar prioridades. sermos justos com os outros, mas respeitarmo-nos primeiro que tudo.
mesmo que nos demos menos aos outros, acredito que estamos a dar mais.


faço sentido?

crescer. ainda estamos a crescer. temos uma bagagem respeitável. eu tirar-lhe-ia o chapéu e dar-lhe-ia primazia, abrir-lhe-ia a porta, se necessário. sempre com um sorriso.
mas custa, porra.

ouço o meu Pai com uma serenidade a contar-me coisas da vida dele pela primeira vez.
ainda o estou a conhecer.
esteve na Revolução no Largo do Carmo há 38 anos entre tantos outros feitos. e eu questiono-me o que fiz eu de tão importante até hoje ou o que posso fazer na minha vida, no meu trilho para ser só feliz e conseguir paz.

nunca me vou preocupar com dinheiro. preocupo-me com o caminho em que por vezes temos de cavar para conseguir apenas andar um passo em frente.

fico com o peito apertado de perceber que não passo tempo suficiente com as pessoas que me dizem mais mesmo que não esteja frequentemente com elas. tenho receio que desapareçam ou que a vida se encarregue disso.


de que é que precisamos?


só de que os dias nos sejam limpos.

mais nada.

15 de abril de 2012

hiatus,

tendo a esquecer-me de como me faz bem ouvir a vida de alguma pessoas,
de achar e compreender que estamos enfiados num tabuleiro de xadrez e que alguém lá de cima nos comanda.

estamos num hiatus massivo e ninguém nos salva. ninguém se dá conta que só precisamos que no meio das ondas estamos a querer deixarmo-nos ir. só.

depois, desistimos ou recomeçamos. não sei que merda é que acontece quando se mergulha fundo e que nos dopa de uma forma que parece que os nossos olhos não são nossos já. vemos a vida de todos os que se cruzam connosco como se as tivéssemos vivido. dói-nos tudo e amamos tudo da mesma forma que a dor que se desenha de dentro das veias até magoar tanto tem de sair.

temos de sair daqui e não vejo nada. esqueceram-se de acender a luz e nunca dissemos que sabíamos o caminho.

penso muitas vezes nos anos em que era criança e que era genuinamente feliz. pensava que os adultos tinham um estatuto inadulterável e que só passando por metas para lá de complicadas é que eu chegaria lá. depois comecei a viver, a ver os anos a atropelarem-se em mim. a acelerar em algumas situações, a fazer um retrocesso noutras mas sempre a conseguir algum equilíbrio no meio desta confusão toda.

o que é que estamos a fazer connosco? há momentos em que tenho a certeza de que estamos na estrada certa, uma vez que as outras deixaram de se vislumbrar e então segues o que conheces.

o resto é uma valente treta. é tudo mutável.

as estações. tudo se quer rebelar e eu só me preocupo de mais ninguém se sentar no chão encostados a uma parede e calarem-se.

o que é verdadeiramente perigoso nisto que fazemos é que não aprendemos a pedir ajuda e depois atropelamos todos à nossa frente.

que não haja (mais) feridos.

9 de abril de 2012

inventário,

era um mapa, se faz favor.

traga uma lanterna, uma corda e uma pá.

agradecemos o apoio, mas pode ir embora, daqui para a frente eu encarrego-me de tudo.

não pode ser de outra forma,

mas foi mesmo um prazer.


(as merdas para se fazer, fazem-se bem)

8 de abril de 2012

auto-qualquer-coisa no início,

lembro-me que me disseram que escrever - para os que sabem o poder que têm entre mãos - é perigoso. desde então, tenho circulado à volta desta vontade, desta necessidade.

"sem medos. mergulhemos fundo."

mas,

compreendamos que temos estado incompletos o caminho inteiro.
agora que não entrei a doer, comecemos.

uso minúsculas mesmo que o assunto seja de grande importância.
não sei nada sobre a vida e tenho um medo atroz de falhar que vou falhando massivamente enquanto tento qualquer coisa além de me empurrar.

Recuperar algo que disseste que se perdeu na zona do olhar

Ou a ilusão de que o tempo volta para trás, ou que permanece imóvel, ou que eventualmente avança nalguma direcção.

Três anos que nada mais fazem do que um piscar o olho à eternidade e as inúmeras vidas que neles se atravessaram – efémeras e inconstantes, sempre em queda livre sempre em sentidos díspares. Como montanhas de pés, uns a testar a atracção gravítica de qualquer um dos abismos da nossa humanidade, os outros a materializar impulsos de alcançar o próximo degrau da cadeia de produção inseparável da nossa natureza.

Todas as coisas que possuímos com o olhar. As vibrações incessantes do tudo que nos é externo. O gajo que se atirou para a frente do comboio, para a frente dos nossos olhos, para a frente do que está à frente e ali permaneceu enquanto indivíduo e dali saiu cadáver. A desconhecida que disse... de mim podes retirar qualquer resposta, qualquer reacção, qualquer possibilidade, qualquer resposta que não seja o meu nome, qualquer reacção que não se prolongue mais que este encontro, qualquer possibilidade excepto a de destruir o que do futuro não nos pertence. E as outras coisas mais modestas à primeira vista, que também marcam os seus contornos na retina dos nossos tempos. Plantas que em segundos se tornam selvas. Vestidos que deslizam dos ombros aos tornozelos sem necessidade de desabotoar um botão, de correr um fecho, de puxar um único fio. Recortes de revista encaixilhados e expostos em paredes de quarto – num momento nada mais que tentativas forçadas de procura de novas formas de expressão artística contemporâneas, noutro dão lugar a janelas tridimensionais para cidades impossíveis  de materializar devido aos excessos de côr, de luminosidade, de oxigénio e, como não poderia deixar de ser, de profunda e bela humanidade.

As coisas que vamos achando, perdendo e trocando na zona do olhar. As que os dedos anseiam por conhecer e tratar por tu. As que os lábios procuram repetir e aperfeiçoar e aprofundar e moldar e fazer crescer e fazer sorrir e preencher de significado e... e essas e todas as outras repetições labiais que nada mais procuram do que a edificação de utopias em carne e osso. Enfim, as coisas e as vidas que se limitam a passar pelos nossos olhos enquanto nos sentamos em frente ao pano branco onde a eternidade se entretem a projectar singularidades aleatórias.

A inocência e a consciência de tudo, essas sim, as duas verdadeiras amantes impossíveis que os olhos não desistem de tentar conquistar e conciliar mas que, tal como todas as amantes, vêm e partem e nada deixam na zona do olhar.

Nada se ganha, nada se recupera, tudo se limita a passar na zona do olhar. É assim que perdemos e mantemos e acumulamos aquilo que vamos podendo ver, com olhos que não se repetem, com imagens que não são possíveis descrever excepto na memória, com o sentimento que é assim que temos de aceitar a parte que nos compete nos anos que por cá passamos. E era assim que te devia ter respondido, há três anos, há demasiadas vidas e coisas antes de ter aprendido como me falar e de aceitar como te dizias.

30 de outubro de 2011

Who am I?

Who am I?

Am I the European dream? Am I one among others, the edgy hope of the future of this landform? Am I the significance of decades of an unsubordinated society?
I have a unpretentious answer to these periphrastic questions. I could try to give you fine-looking and intriguing answers to masquerade what I should be, but I am not. I could bloom my answers to try to convince you of whatever I would like you to see on me, but in fact I prefer to not induce you of anything at all, and just to show you what I am.
I wanted to tell you what I am not, but once more I would be using a sophistic speech to once more to take you to the vision that I want you to have about me. In fact it’s sad that people make questions expecting exactly this kind of answers.  Inclined answers to what they want to listen. Answers full of false and invalid premises.  This is what I can do. I f you give me the opportunity I can tell you exactly the Super Me that I want you to know.  Are you expecting that? I am going to light my cigarette now to give you some easy flashes of expecting an answer to that. It’s not going to happen. You know the answer to that and I really don’t give a fuck to what you expect. That’s the good part of writing something so nebulous about me. I know what I am saying and most of all I know exactly all the craps that you anticipate to read about me. Maybe now you already understood that you are wasting your time reading this words because I am just mad, and I want to make you even angrier with the fact that you really believed that you would read something that in fact would be a pleasant moment on trying to understand who I am.
Why I am furious? One more question. You don’t even know the answer to all the other interrogations, and you are already thinking in more questions.  Can you see how irreplaceable is the ability of making you to lose time?  Well, I am mad because of what I am. Because of all those promises that life gave me, all the dreams that people taught me to have, because of all the people that inspired me with their arguments about a certain possible dream, that in fact it’s nothing more than a fantasy. I am angry with all my expectations about life, with all my expectations about myself, about all the people that leave around me that try to convince me that life is something different than what it is in fact.

Am I irritable? No, I am just telling you who I am. Who am I?
I am just someone.

2 de fevereiro de 2011

.

Isto é estúpido. Não adianta estender os argumentos pois eles nunca nos farão chegar a outra conclusão.

Ouço-te falar. Dizes coisas, cada uma com o seu conteúdo, o seu significado, o seu nome próprio. Estabeleces relações de causalidade entre elas e crias uma ordem hierarquizada a que todas obedecem.

E, no fim, teimas em perguntar o que penso sobre esses teus assuntos.

Já devias saber que é escusado. O que para ti é infalivelmente lógico, para mim não tem ponta por onde se lhe pegue. O que para ti importa acima de todas as coisas, é sempre algo que normalmente me passaria despercebido.

Por isso é que te digo, realmente temos a nossa forma muito própria de nos entendermos – e eu gosto dela.

Agora não pretendas que te compreenda, que te conheça, que te saiba sequer ouvir.

Isto é estúpido. Não fui feito para te completar, sou de natureza individual.

30 de janeiro de 2011

O mundo antes da Joana Amaral Dias

A minha percepção é profundamente dominada - não: governada - por uma tipologia dicotómica. Isto é, para mim só há dois tipos de coisas no universo: as coisas que me dão tesão e as coisas que não me dão tesão. Vejamos: marmelada com gajas bonitas dá-me tesão; a sonoridade do português falado no Brasil não me dá tesão. Simples. Parece fácil. Ora, claro está, que isto - como tudo na vida, meus amigos, como tudo na vida! - nem sempre é assim tão linear.

Por exemplo: a bela e mui fermosa deputada Ana Drago dá-me um tesão danado: devo ser o único português que se excita a ver a ARtv. Mas acontece que é uma senhora de esquerda, e ser de esquerda pertence ao grupo das coisas que não me dão tesão. Por outro lado, ouvir o deputado Nuno Melo a falar já é coisa que me entesoa sobremaneira, porquanto é a melhor oposição personificada que, portugueses, temos disponível. O gajo é o Roosevelt do CDS, pá. Mas depois, lá está, é homem - coisa que não me dá lá grande tesão, arriscando o eufemismo.

Agora o que acontece é o seguinte: se estás a pensar que ficar de pau feito por ouvir o Nuno Melo a falar é efeminado, desengana-te. Em primeiro lugar, o Nuno Melo é do CDS - o que é d'homem. Depois, o pau faz-se meramente pelo conteúdo atraente das suas palavras. Não há aqui qualquer comportamento gay. E mesmo que houvesse algum fundamento maricas nesse tesão, as suas aplicações práticas nunca deixariam de ser estritamente heterossexuais. Na verdade, a homossexualidade pertence ao grupo de coisas que não me dão tesão. Será portanto erróneo achares isso, amigo, e também o indício de um raciocínio deficiente se em algum momento foi essa a tua opinião. O rei vai nu.

Pois agora nada melhor para consagrar a masculinidade de tudo que aqui foi dito do que este parágrafo tão viril que se segue, este desenlace de tão baixo nível mas com tão altos níveis de testosterona. Perdoem-me, mas é Primavera. E uma vez que provavelmente já começas a exigir uma explicação para o meu binómio existencial não ser assim tão bifurcadamente linear quanto isso, amigo, aqui vai: o problema é que - sendo a percepção governada por esta dicotomia tipológica - não se pode esperar demasiado das coisas. Não digas já "Ei que conclusão estúpida", amigo. Lembra-te primeiro que é atroz e desumano ter que aceitar que, quando uma coisa entesoa, há sempre uma outra que nos vai vilipendiar o tesão - como por exemplo homens, ou ser de esquerda.

E isto acontece porque, algum tempo depois de nos apercebermos da situação, não conseguimos deixar de pensar o quão perfeito seria se pudéssemos fundir o espírito jovem embora conservador do deputado Nuno Melo com a sublime linguagem corporal da deputada Ana Drago: eis Deus. Isto é só um exemplo, atenção, não estou a dizer que me masturbo a pensar nisso, até porque me masturbo a pensar nisso. A questão é a de tirarmos conclusões de tudo isto; reflectirmos sobre estas evidências com o nosso espírito crítico de domingo, para que os últimos aforismos se formem; e o axioma é, pois claro, que não há um tesão perfeito; nenhuma erecção dura para sempre. Consegues imaginar algo mais violento?

Pensa só nisto: é este o tipo de violência que, por diversas vezes e de diversas maneiras, funciona como alicerce do mais derradeiro amor, como por exemplo acontece em Romeu e Julieta, quando ela lhe come a cara e os genitais, e fica toda suja com o sangue dele, momentos antes de ser alvejada pela polícia judiciária numa estrada nacional. Mas isso já é outra história.

Ah, e a Joana Amaral Dias. Adoro-a.

3 de novembro de 2010

Lábios

São lábios, senhora, são lábios
São sábios nacos de carne sua
Fraquejam na hora do beijo
Sobejam-me agora que vejo
Que doces fastios são na verdade

Os meus sentidos frios, o seu coração sem idade,
Peregrinos sombrios da oração crua do corpo
Borboleteando andorinos no torpor salivado dos sonhos,
Nestes sonhos medonhos de vão, orgia e liberdade,

Pelo que quando somos só lábios
Aparecem logo aí umas mil mãos
Todas a levantarem-nos do chão

Nós no ar, nós mais do que a levitar
Nós com tesão numa curva do tempo
O coração ao relento, as pernas ao ar,

Sendo que quando somos só lábios
Desfocamos como se fotografias
Onde detemos pedaços de bons dias
Que é um bom eufemismo para utopias,

Disse-mo um enorme minuto vazio,
Grandíssimo, puto, que gentio de tempo,
Um adágio rômbico de línguas,
Um fio de apetite que se solta
E um gajo que o aguente.

São lábios, senhora, são lábios
São fáceis nacos de carne sua
Fraquejam na hora do beijo
Sobejam-me agora que vejo
Quão doces e frios são na verdade

Pelos meus queridos gentios de emoção, de afinidade
Que meu sombrio coração tem com lábios e com vaidade,
Borboleteando andorinos no torpor salivado dos sonhos,
Nestes sonhos medonhos de vão, orgia e liberdade,

Pelo que quando somos só lábios
Aparecem logo aí umas mil mãos
Todas a levantarem-nos do chão

Nós no ar, nós mais do que a levitar
Nós com tesão numa curva do tempo
O coração ao relento, as pernas ao ar,

Sendo que quando somos só lábios
Desfocamos como se fotografias
Onde detemos pedaços de bons dias
Que é um bom eufemismo para utopias,

Disse-mo um enorme minuto vazio,
Grandíssimo, puto, que gentio de tempo,
Um adágio rômbico de línguas,
Deusas de carne e réguas para sonhos, pá.
Um trapézio de lábios.

25 de janeiro de 2010

Interrupção


Parar não seria apropriado.
Desistir muito menos.
Interromper é indubitavelmente o termo mais apropriado para tal episódio. Falta de entusiasmo criador, também não foi. Muitos perguntam a razão desta interrupção, muitos questionam o motivo que nos levou a tal. Outros rejubilam-se com o facto de termos parado de arrombar a falta actividade intelectual vivente à nossa volta.
Tudo tem o seu quadra e a sua altura própria para acontecer na vida. As esperanças depositadas nesta revista cultural sempre foram bastante exigentes e chegou-se a um ponto, em que a nossa vida pessoal já não nos consentia inspiração suficiente para depositarmos intelectualismos nesta revista. Sendo então, que decidimos desdobrar os nossos canais e convidar mais bloggers para historiarem aqui.
Erro crasso.
Esqueceu se uma minudência e aqui temos de assumir que a culpa foi toda nossa. Nós somos um grupo, ou um movimento (como preferirem), de pessoas que temos como identificador, um laço muito particular que nos une. Sendo assim, com obviedade que nada nem ninguém, além de nós próprios, poderia contribuir para esta revista. Só nós é que conhecemos o anseio que nos levou a criar esta ideação. Só nós é que conhecemos o cerne que nos envolve. Podem fazer o julgamento que bem entenderem daquilo que estou a dizer, mas realmente, só nós é que somos capazes de levar este projecto adiante. É por isso que denomino este post de “Interrupção”, pois todos sabem que as interrupções são sempre aprazíveis. As interrupções atrasam e prolongam o prazer, dão tempo para dar asas à criatividade e despertam as saudades enormes que tinha de escrever algo nesta revista, apelando a todos os que incumbem esta nata especial de ditos-cujos, a fazerem o mesmo para que intuam aquilo que eu estou a tentar mostrar com este pequeno post.

interrupção (latim interruptio, -onis)
s. f.
1. Acto! ou efeito de interromper ou interromper-se.
2. Descontinuação, suspensão.

23 de maio de 2009

miopia = misantropia.

com o olhar no limite. há uma dor que não desaparece da cabeça, não se atenua, não permanece na sombra. o tempo, às vezes, congela. olhos inchados, fixos em aneis de fumo, fixos numa luz que realça no meio do que se vê, fixos numa palavra que deixa de fazer sentido a partir do momento em que se desvia o olhar dela, tal como o demais.

e o olhar desvia-se em todas as direcções. a procura incessante de um paradigma, de uma mão, de qualquer coisa. e vê a joana, novamente, como se tivesse acabado de sair do quarto, com doze anos, a dizer ao pai que só tinha ido dar uma volta com uns amigos, que estava bem, para, de seguida, desaparecer para sempre. e depois, como se houvesse alguma ligação entre acontecimentos sem ligação alguma, o olhar vê-se si próprio, com cinco anos, a fugir do jardim de infância, a esconder-se da mãe, sem compreender porque ela não foi trabalhar naquele dia só para procurar, entre lágrimas, o puto cuja única coisa que sabia sobre a vida era que não queria aturar os outros putos, ao menos, por um dia. e aparece o flávio, com quatorze anos, fechado num quarto, a ouvir a mayonaise, a ouvir tudo o que os meus ouvidos ouviam também, âmbos perplexos por estarmos sozinhos numa idade já tão avançada.

de repente, os olhos abrem-se do nada, estão em mil novecentos e oitenta e sete, e têm dois anos de idade. vêem novamente a mãe, desta vez, a segurar o carrinho-de-mão, a caminho da ama, à chuva, numa rua que ainda reconheceriam vinte e um anos depois, em leça da palmeira, se lá voltassem. não há uma única preocupação, o passeio é sereno, ela está lá, é permitido voltar a fechá-los, voltar a adormecer até acordar num qualquer outro lado.

vinte e um anos depois, o andré enfrasca-se de whiskey sozinho em casa semi-consciente do embaraço que sentiria se os olhos da mãe dele trespassassem a porta para olhar os dele. a alexandra desapareceu, dizem que arranjou um gajo e que decidiu ficar assim, longe de confusões. o pedro acabou o curso de enfermagem e percebeu, passados cinco anos em silêncio, que o silêncio não causa amnésia no que diz respeito a amizade. e o j.d. continua, noite após noite, fechado no escritório, convencido que, se os miudos lhe continuarem a alimentar o negócio por mais uns tempos, um dia, poderá mesmo vir a aspirar a dedicar-se de vez ao cinema, como sonhou bem antes de algum dia ter vendido o primeiro saco, ou, sequer, fumado o primeiro paiva.

e as imagens desenrolam-se assim, desprovidas de propósito, de côr, fio-condutor. através da janela o sol anuncia um novo dia, mas acrescenta que ainda não é tarde para adormecer. quem sabe em que ponto o movimento de translação vai deixar o mundo quando se voltar a acordar. se bem que movimentos uniformes nunca levem a nenhum lado minimamente original. só não é um desperdício total de tempo porque, entretanto, numa noite boa, os olhos fechados vêem mais uma vez a diana, a ser fotografada, com vinte e um anos, a sorrir depois da primeira tentativa de preparar uma refeição a dois, sobre a qual elogiou-se a decisão de despejar a lata inteira de cogumelos e lamentou-se a dose mal calculada de sal. numa má, procuram a maria, percorrem a cidade, nunca a chegam a encontrar.

e logo os olhos despertam apenas para voltarem a ser induzidos à cegueira, a humidades que os protejem de percepções mais nítidas do que realmente se passa fora deles. até ao momento em que um minuto volta a demorar, realmente, sessenta segundos a passar. em que o fumo se ergue do cigarro para se suspender no ar, em espirais brancas nas quais fixamos o olhar, até o segurarmos com as mãos, maravilhados por não nos limitarmos a sustê-lo nos pulmões. até que as mãos se abrem, o fumo de novo liberto liberta a atenção do olhar para outras recordações e outros fascínios da vida em câmara-lenta, demasiado lenta para que mais alguém os consiga acompanhar. 

23 de abril de 2009

"Borboletas Na Piça" - Studio Report

Em português, "reportagem de estúdio". Diz que é para divagar sobre alguns aspectos do processo de gravação e assim. Bem, foi muito difícil. Custou-me mesmo muito. Uísque e charros. Incomensuravelmente. Horas e horas, eu contra o metrónomo, aberto, à espera de deixar a música violar-me, de instrumento na mão, quando podia muito bem estar a escrever abautemis relativamente maravilhosos no meu espaço pessoal, ou até mesmo a responder aos comentários das meninas. Noites e noites, desesperado por vê-la materializar-se, obstinado em assistir ao seu sagrado nascimento rarefeito; vidrado na busca do lugar perfeito para um bombo, para uma tarola, para um choque, para um raide; enfeitiçado pelas cordas que me sorriem um si de sétima, um mi bemol, as cordas que me choram um ré menor; imóvel ante o contraste preto e branco dum piano bêbedo, ora tecla branca, ora tecla preta, através da dicotomia anciã dos seus meios tons sem idade, em vez de sair de casa e ir ouvir dijeis de eléctro e snifar coca, como fazem os jovens que realmente são felizes.

Sim, tens razão, não devia estar a escrever poesia menor em jeito de crónica socio-pretensiosa, mas sim uma reportagem de estúdio. Muito bem: o processo de gravação ainda está a avançar no processo de gravação que no fundo é a maneira como se processou o desenrolar dos acontecimentos de capturar os sons que aparecem na gravação durante a audição do álbum que é também um processo mas que no fundo é só e ainda uma gravação, enquanto o outro processo está, como é óbvio, intimamente relacionado com o processo de criação, já mais daquele domínio do pseudo-artisto-conceptual aprazível a intelectuais de esquerda, mas é também um aspecto que ainda está a avançar no processo de criação no sentido em que ainda me falta muito fazer uma música. Percebeste? Lá está. Mas é sempre assim tudo muito desorganizado, tudo muito disperso, como não podia deixar de ser numa banda que consiste num só elemento, ainda que assaz bonito. É que fazer tudo sozinho dá um trabalho do caralho, só para que conste e rime.

Há desde músicas já completamente prontas até músicas completamente por fazer. São vinte e sete. A única certeza que têm é que vão estar todas no álbum. Chama-se "Borboletas Na Piça" e vai ter muitos convidados. Digo quem são? Digo. Tem que ser. Não são bem convidados. São amigos que, duma maneira ou de outra, também fazem, por assim dizer, parte deste intrépido projecto. São eles que ouvem as músicas quando ainda me parecem ridículas e que me ajudam a melhorá-las, de uma maneira ou de outra, até elas atingirem a sua forma final, que é quando já não me parecem tão ridículas assim. Obrigado a eles por respirarem. Note-se ainda que estas pessoas não são necessariamente músicos, mesmo que também os haja. Bom, sem mais demoras, consagrar-lhes-ei agora um parágrafo.

São eles - por exemplo e entre os mais-que-confirmados - a Patrícia Matos (www.plastessina.com), a designer que afirma ser a melhor pessoa do mundo embora eu ache que é apenas a melhor pessoa do Alto da Maia, e que faz a arte plástica desta cena toda; o André Cardoso (Death Will Come, Genoflie, As Far As Possible; www.myspace.com/andregenoflie ou www.suorsocial.blogspot.com), que para além de ser o produtor do álbum, é também pequenino, fofo e vai participar com um tema que escreveu integralmente e em regime de exclusividade; a Custódia de Barros, que é considerada por muitos a melhor autora de todos os tempos (sendo a sua última obra de uma magnitude e monumentalidade incomparáveis, como que atingindo a perfeição e chegando mesmo a superá-la, até ao mais-que-perfeito), e que é também, na minha opinião, a minha mãe, e participa activa e vivamente no álbum, com as suas palavras de sapiência advertindo-me para as mais subtis arestas a limar (apesar da sua disponibilidade ser reduzida devido ao facto de passar demasiado tempo a ouvir os Leandro e Leonardo); o Guilherme Lapa (Well Made Mistake, Oblique Rain, My Eyes Inside; www.myspace.com/dramaonbass), que vai compor meia dúzia de três linhas de baixo, dizer-me que sou uma merda e que tenho que melhorar muito se quero mesmo que ele participe nesta bosta de projecto, e ainda co-escrever a música que me falta para acabar o esqueleto daquilo que será o alinhamento do álbum; o Ismael Silva (www.myspace.com/bloopreinsz), que apesar de gostar dos the Smiths, de ser um gajo ligado ao teatro e de aceitar a música electrónica como uma expressão legítima de arte, é, não obstante, bom mocinho e interpretará um número indetermindado de canções no álbum; o Hugo Gil (Quetzal's Feather, Metáfora; www.myspace.com/hugogil), que é o guitarrista mais sentimental de sempre de acordo com os cânones culturais do mundo ocidental, imprimirá o seu romantismo indelével em pelo menos um dos vinte e sete temas do álbum; o André Tavares (Solid, Death Will Come, Genoflie, Preguiçoso; www.myspace.com/andregen ou www.myspace.com/preguicoso) que nasceu no berço de ouro da música, e apesar de ter fugido cedo dessa sua herança musical para abraçar a carreira da comida, retornou ainda a tempo àquilo que lhe corre no sangue, e é a única pessoa que eu conheço capaz de cantar a música que vai cantar da maneira que eu quero que a cantem; o Telmo Ferreira (traumacultural.blogspot.com), escritor, no sentido em que escreve cenas, e ilustre estudante do relativamente prestigiosíssimo curso de Filosofia da Faculdade de Letras do Porto, vai contribuir nesta pura manifestação de arte popular ao dar métrica a algumas das suas palavras para que sejam letras de uma ou outra cançoneta; a Joana Rodrigues (the Sticks & Stones & the Broken Bones; www.myspace.com/perfectcycle), professora de música, exímia realizadora de massa à bolonhesa e vocalista de serviço, vai também interpretar uns temas; e o etc.

Isto, atenção, leitorzinho(a), é só uma coisa que eu escrevi por estar com algum tempo livre - não faças disto a tua bíblia. Aguarda que hei-de escrever uma coisa moderadamente séria e rigorosa sobre o álbum. Aguarda. Mas também não penses que a minha vida é isto. Eu tenho mais que fazer, pá. Estudo e tudo. E não te esqueças que estou inclusivamente a gravar esta merda. Mas também, foda-se, demoro menos tempo a redigir uma cagada destas do que tu a lê-la. Ahah. Estou a brincar contigo, leitorzinho(a). Quem faz isso é o Marcelo Rebelo de Sousa. E o Bruno Aleixo. Eu não. E isto não são cagadas. São cagadas muito bem escritas, num português irrepreensível. Ah pois é. Não, agora a sério, vou dormir, meu. Para me despedir, felicito-te, leitor(a) anónimo(a), por teres lido esta fiel redacção. Tens a minha garantia de seis meses de que, agora que leste tudo isto, estás sem dúvida mais culto e inteligente. E digo-te mais ainda: se voltares a ler tudo de novo, vais ficar mais bonito(a). A sério. Ò lê lá... Estás a ver? Pois, pá. Eu disse-te. Agora não te admires se ficares sexualmente mais atraente quando comprares o álbum...são coisas da vida, pronto.

15 de abril de 2009

um texto de co - autoria (incompleto) "O velho que vivia os sonhos dos outros"

Era coronel, daqueles mesmo rijos, só comia sopa - comida da tropa - argumentava ele; e vivia cada dia como se fosse não o primeiro mas muito perto desse, é que, dizia o coronel, muitos seios havia já visto e muita obscenidade havia ouvido para que pudesse viver cada dia como uma catarse completa, um começar de novo limpo. Não obstante esta rectidão um tanto ou quanto obtusa, podia, e fazia-o muitas vezes, transportar-se através dos olhos daqueles que ainda têm a sorte de ver a bola como apenas uma bola e nada mais. Como ele gostava de viajar esse coronel, privava-se de sonhar durante a noite para que pudesse guardar espaço e energia para os sonhos que vivia através dos outros. A sua pusilanimidade impedia-o de viver esses sonhos um pouco mais de perto, de partilhar as histórias emprestadas com aqueles que o queriam ouvir. É que o velho apesar de rijo não deixava de ter cara de vôvô pateta, com o seu bigode farfalhudo e olhar enorme. O velho J., chamemos-lhe assim, vivia desta forma desde que a sua querida M. abraçou um outro mundo que não o dele, no dela não lhe permitiam ruborescer, respirar sequer, era um atentado. Era chuva, tirando o seu velho chapéu, tudo vinha à romaria pérfida com o melhor fato, pingados pela chuva - e ele a agradecia, chorar não cabia na sua dimensão, precisava daquelas frias lágrimas - as personagens deslizavam pela tabuleiro verde contornando os blocos cinzas, ensopados falavam quase num suplício para o Coronel:
- "Foi Deus que quis", "Foi para um sítio melhor" , "Era boa pessoa"
Velho J. não respondia, apenas fitava a sua, a sua mais que sua, enquanto se distraía com os risos perdidos dos pequenos, caçando e apanhando poças vivendo a inocência que é obrigatória ter, notória quando no lar da Morte o seu tapete é um escorrega.
Velho J o rude, havia quem dizia, sempre foi saudoso, e no presente o mais íntimo gesto o levava para bem longe do presente. A solidão, essa amiga inimiga potenciava todo as suas memórias, lembrou-se mais uma vez porque estava só, a data em que ficou só, ele queria ir chapinhar, queria rebolar no chão verde e saltar os tais blocos cinzentos.... Travou-se!
"M. perdoa-me senti felicidade na memória da tua despedida".