3 de novembro de 2010

Lábios

São lábios, senhora, são lábios
São sábios nacos de carne sua
Fraquejam na hora do beijo
Sobejam-me agora que vejo
Que doces fastios são na verdade

Os meus sentidos frios, o seu coração sem idade,
Peregrinos sombrios da oração crua do corpo
Borboleteando andorinos no torpor salivado dos sonhos,
Nestes sonhos medonhos de vão, orgia e liberdade,

Pelo que quando somos só lábios
Aparecem logo aí umas mil mãos
Todas a levantarem-nos do chão

Nós no ar, nós mais do que a levitar
Nós com tesão numa curva do tempo
O coração ao relento, as pernas ao ar,

Sendo que quando somos só lábios
Desfocamos como se fotografias
Onde detemos pedaços de bons dias
Que é um bom eufemismo para utopias,

Disse-mo um enorme minuto vazio,
Grandíssimo, puto, que gentio de tempo,
Um adágio rômbico de línguas,
Um fio de apetite que se solta
E um gajo que o aguente.

São lábios, senhora, são lábios
São fáceis nacos de carne sua
Fraquejam na hora do beijo
Sobejam-me agora que vejo
Quão doces e frios são na verdade

Pelos meus queridos gentios de emoção, de afinidade
Que meu sombrio coração tem com lábios e com vaidade,
Borboleteando andorinos no torpor salivado dos sonhos,
Nestes sonhos medonhos de vão, orgia e liberdade,

Pelo que quando somos só lábios
Aparecem logo aí umas mil mãos
Todas a levantarem-nos do chão

Nós no ar, nós mais do que a levitar
Nós com tesão numa curva do tempo
O coração ao relento, as pernas ao ar,

Sendo que quando somos só lábios
Desfocamos como se fotografias
Onde detemos pedaços de bons dias
Que é um bom eufemismo para utopias,

Disse-mo um enorme minuto vazio,
Grandíssimo, puto, que gentio de tempo,
Um adágio rômbico de línguas,
Deusas de carne e réguas para sonhos, pá.
Um trapézio de lábios.